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domingo, 21 de março de 2010

Tenho medo...

Tenho medo que me faltem os abraços,
Que os dias passem iguais, sem sal, sem cor,
Tenho medo das sombras, dos meus passos,
De perder-me e perder o meu amor.

Tenho medo de mim por ser cativo
De um desejo maior que desconheço,
Tenho medo que Ele seja só castigo
E de mim não cuide se o mereço.

Ah! Se Tu me viesses consolar
Deste temor que carrego cada dia,
E a minha alma em Ti acreditar;

Que ter medo não é coisa fatal,
É sonho breve, instante de agonia,
Que acontece a quem é imortal!

Fernando Barnabé


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Para onde foi o nosso amor?


Já passaram alguns anos desde que jurámos amor eterno.
Como eu te amava, meu Deus! Já nem consigo lembrar-me quantas vezes procurámos fundir num só os nossos corpos sedentos de infinito. Descobrir o teu corpo era um acto sagrado, um milagre que abalava as fundações da minh’alma. Lembras-te que nos olhávamos profundamente como se entoássemos poemas de bem querer e melodias celestiais inaudíveis?

Agora aqui estamos, deitados, lado a lado, olhares vagos postos num programa qualquer da TV. Eu não quero o teu corpo e tu há muito que não me procuras... Para onde foi o desejo? Quem o matou? Foste tu? Fui eu? Porque não falamos desta angústia que nos corrói o viver? De que temos medo? Será que seguiremos assim, nesta espécie de paz podre, renegando o prazer do corpo e do espírito? Que violência para a alma meu Deus!

No quarto ao lado, dorme uma menina, fruto de inúmeros equívocos; pensámos que talvez ela nos iluminasse os dias... fosse a derradeira esperança. Hoje lamentamos, que o nosso egoísmo, também lhe ensombre o olhar.

Fernando Barnabé

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Do medo


Um dia, quando o tempo quiser,
Vou rir dos meus medos.
Vou jogar à bola com a perda, a dor e a morte;
porque não?
Vou fintá-las com perícia e elevação.
Não mais perderei o sono,
o bater sincopado do coração.
A perda? É pura evolução…
A dor? Não me atingirá a alma…
Morrer? Lembrança breve do que fui,
alma à procura de outro corpo, de outra viagem.
Só terei medo que me levem as memórias:
que esqueça o meu nome, o verbo ser, o verbo estar,
o verbo AMAR...
Tudo o resto, são coisas fúteis e banais.

Fernando Barnabé

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Do desamor


Era assim há muitos anos; dois corpos habitando a mesma casa o mesmo espaço, sem saberem ler-se… dois analfabetos afectivos, procurando desesperadamente que uma entidade salvadora lhes decifrasse o coração.

As almas exigiam-lhes liberdade mas o preço a pagar era a vergonha da separação, a dor dos filhos, os sonhos desfeitos…que preço tão alto a pagar…perguntavam-se. Coragem ou cobardia? Medo? Solidão? "Até que a morte vos separe"? Os pratos da balança mantinham-se em equilíbrio estável denunciando o peso e a inércia dos dias.
Enquanto não encontravam respostas e os filhos cresciam, envelheciam agonizantes…o desamor tinha-os consumido.


Fernando Barnabé