Não mates o amor...di-lo. Di-lo ao vento, grita-o pelos campos ou deixa que a pomba leve a tua mensagem, se ainda tens coragem para voar(amar). O amor deve dizer-se... O amor deve cantar-se... Mesmo que não encontre eco... Mesmo que a pomba se esgote na viagem e não regresse mais ao seu beiral.
O meu sonho era descobrir contigo onde nascem os arco íris, Onde se deita o sol na noite escura e como acorda p’la manhã. O meu sonho era descobrir contigo porque só o sofrimento nos eleva em espírito e nos agracia, apesar da tristeza que semeia nos corações;
O meu sonho era descobrir contigo que o amor é a verdade para além de todas as coisas e que o seu fruto pode ser um ventre pulsante, um sorriso, um olhar cúmplice, dois corpos enlaçados pela fúria dos sentidos, um despertar lânguido com cheiro a maresia. O meu sonho era morrer contigo num abraço, abençoado pela espuma das ondas.
Não sei de onde vens ou se algum dia chegarás, Mas se vieres conta-me histórias; histórias de amor, de heróis e heroínas com regaços de pétalas e seios de âmbar, com bocas sensuais e membros diáfanos das estátuas. Histórias onde se respirem as palavras e se sorvam os olhares enamorados, onde os corpos falem ao som do silêncio da noite incendiando as almas e enxugando os prantos das mulheres e homens rejeitados. E sobretudo fala-me de ti, da tua história, a mais bela por certo, porque ela é tua, e a entregas a mim como oferenda... Fala-me dos encantos e desencantos da criança que trazes contigo...Chora, grita e ri se quiseres... Mostra-me a melodia que exala do teu corpo para que eu descubra como ela faz bem ao meu. E deixa-me que te cuide, que te embale como te embalou tua mãe, ou, se preferires, como as ondas do mar nas noites tórridas de Verão de Agosto. Deixa que eu seja a tua morada, a tua brisa, o teu consolo os teus olhos, o teu sangue a tua pele... Deixa que tu sejas o meu caminho e eu a luz que o ilumine.
Não sei se algum dia os nossos passos se cruzarão novamente, mas é bom saber que estás viva e vendes saúde...só isso basta para trazer-me alegria ao coração.
Ainda me custa suportar a tua falta...Foi tudo tão rápido e inverosímil...Não sei ainda hoje o que te fez partir, se o cansaço de mim ou se a tua alma clamava por outras vivências, outros espaços, outras camas.
É raro o dia que não recordo o calor do teu corpo, a tua voz, o teu toque, os teus olhos, as tuas mãos...Entendo que há sempre um tempo para amar e outro tempo para atravessar os áridos desertos, mas sempre senti que ficaste comigo, ancorada ou dentro do meu peito.
Sei que ainda me amas, apesar da distância que nos separa...Dizem que o amor verdadeiro é aquele se vive à distância; talvez eu acredite nisso sim...Não se ama alguém apenas porque o corpo desperta em nós inflamadas sensações...
Sei que amarás outros corpos, sei que vibrarás com novas emoções e descobertas, sei que o prazer te inebriará os sentidos e te fará rodopiar na procura, na procura daquilo que fomos e que não se apagará jamais, mesmo quando os nossos corpos inertes e sem vida deixarem este plano.
Sei que só de mim te lembrarás quando a solidão te assaltar, quando os dias te parecerem infindáveis e sem brilho, quando o sol teimar em não entrar no teu quarto.
Como me poderás esquecer meu amor se fui eu que te o dei a descobrir...Lembras-te do nosso primeiro momento intimo? Lembras-te como guardaste na memória a música que nos embalava os corpos sedentos de infinito? É claro que te lembras, como poderíamos esquecer aquele hino à comunhão das almas...Baptizámo-la como a "nossa canção" e eu sei, que sempre que a ouvirmos, lembrar-nos-emos que o amor é tão só uma sublime melodia gravada na memória, um canto que despertou em nós o sentimento de bem querer, para além de todas as vicissitudes, para além de todos os desejos.
Sei meu amor, que viveremos eternamente juntos, como duas mãos em fervorosa prece!
O corpo sente e tem memória, O espírito, esse, vagueia na procura consciente que justifique a dor corpórea. E eu lembro-me de tudo sabias? Lembro-me de tudo quanto habitava o teu ventre prenhe de medo e de ansiedade… Eras jovem, muito jovem, precisavas de tempo para viver Mas tinhas no ventre uma prisão e no coração a certeza que Jamais serias liberdade… Como ele batia meu Deus! Lembro-me que não dormia enquanto o teu coração não adormecesse calmo e sincopado…Enquanto o teu marido não chegava entorpecido pelo vinho… Dava dó sentir que naquela casa fazia frio e que as paredes do teu ventre Choravam de dor… Foi o coração que te atraiçoou, mulher sofrida… Porque não o escutaste? Porque não o seguiste quando a paixão te ardia no peito, no corpo todo? Foi-te fatal o erro... Hoje é tarde, irremediavelmente tarde... Eu, do teu ventre nascido e com a experiência do teu coração, sei que jamais serei feliz se me deixar aprisionar pela racionalidade, pela rotina dos dias onde mora o desamor e a desesperança... Deixem que eu solte as asas e vá aonde o meu coração me levar...
Fiz-me ao mar, casa onde se abriga o meu sustento. Aqui, respiro o voo da gaivota, sorvo o ar do vento e sinto o embalo da onda, como mãe que cuida, como mãe que ama. À noite falo com as estrelas; elas são sábias e constantes, muito mais sábias do que os homens sábios e constantes. Que bem se está aqui na minha casa onde é sempre belo o amor que fazemos...