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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Prece

Que eu seja Senhor um instrumento da tua vontade, na fé e na coragem, e que, na provação, me faças ver a luz.
Que eu possa servir-te com abnegação e firmeza de propósitos e que as minhas acções e pensamentos sejam o reflexo da tua sabedoria.
Fazei de mim Senhor um ser melhor, acreditando sempre que os teus desígnios são tão somente algo que eu devo aceitar.
Deixai que o vosso amor impregne o meu coração e que as minhas mãos sejam uma extensão das vossas, em doação, misericórdia e temperança.
Senhor, deixai-me seguir sem lamentações o caminho que me haveis destinado, e, se na porfia eu vacilar, redobrai a minha crença na imortalidade da alma e na tua infinita bondade.

Amém

FB

Julguei que nascia dos teus braços

Julguei que nascia dos teus braços, e as tuas mãos, murmúrios de vento, embalavam-me o choro, como se ele fosse o primeiro cântico da alma.

FB

terça-feira, 16 de março de 2010

Para lá de mim


Para lá de mim, só o orvalho das estrelas
e a ternura; a ternura convexa de um ventre pulsante.

Para lá de mim, só o sangue das flores,
o alvor de um olhar e a alma do sonho.

Para lá de mim, só o canto,
a melodia do vento e a fome voraz dos ribeiros.

Para lá de mim, só o espanto,
um sorriso de criança e o voo sereno do coração dos pássaros.


Fernando Barnabé

sábado, 5 de dezembro de 2009

Nas urgências


Estava sentada ao meu lado no banco das urgências do hospital. Os olhos mostravam a febre que lhe consumia o corpo. Ardia a criatura!

Era uma senhora dos seus sessenta e cinco anos, de traços finos e amáveis, apesar das dores que a tolhiam. Percebi que sofria... muito... mas, a sua atitude face ao sofrimento, que chegou sem pedir licença, era de uma serenidade invejável.

A enfermeira deu-lhe um comprimido para baixar a febre e vinte minutos depois dizia-me com candura: - "Já me sinto melhor sabe, a quimioterapia por vezes prega-me destas partidas", revelando o parco cabelo escondido pela toca, sem qualquer constrangimento.

Tinha ultrapassado já aquela fase em que o sentimento de raiva dá lugar à resignação, à aceitação natural de que “somos seres para a morte”, e que a partida não é mais do que uma necessidade da alma, também ela sedenta por novas viagens.

Fitou-me e disse-me com um sorriso cândido: “Desculpe lá a minha curiosidade,e o jovem o que faz por cá? Está doente? Olhe que não parece. Que belas cores as suas...decerto já foi apanhar uns banhos de sol, se eu pudesse era o que fazia, já viu como estou branquinha? O meu pai, que Deus o tenha, também era assim...”

Não consegui articular palavra. Olhei-a nos olhos azuis agora descongestionados e pensei como seria bom, que com um simples toque de mão, pudesse operar um milagre. Um sentimento antigo de impotência e de frustração incontidas focalizou-se na garganta...abandonei a sala à pressa, antes que a minha heroína desse conta de que os homens também choram.

Fernando Barnabé

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Que não se te queixe a alma


Que não se te queixe a alma.
Morde a vida com os dentes da esperança.
Que se não te escape enquanto ainda respiras,
Enquanto ainda andas, enquanto ainda vês…
Abraça-te e faz contigo uma festa!
Lança o teu maior sorriso ao infortúnio.
Beija cada lágrima, festeja o calor do sol, o cheiro a maresia,
o amor que ainda trazes no coração.
Não tenhas medo do amanhã;
a paz estará contigo no fim da caminhada!

Fernando Barnabé

Zen


Por fim, sentia o destino em todos os passos do caminho.
Agora tudo lhe fazia sentido,
a dor, a angústia, a felicidade, todos os momentos já vividos.
Transformara-se, num ser mais adulto,
com poucas ou nenhumas certezas.
O seu lema e a sua bandeira era nada esperar.
Desejava apenas ver o nascer de um novo dia
e sentir que a água fresca
que o seu corpo procurava todas as manhãs lhe vivificavam a alma.

Fernando Barnabé

Fala-me da tua alma


Fala-me da tua alma.
Diz-me de que cores se veste
e que melodias a embalam
quando o vento vindo do mar acaricia a onda.

Diz-me se acaso sorri
quando o sol te fervilha nas veias,
ou quando o amor se derrama
pelos cumes e vales do teu corpo moreno.

Diz-me se ela é livre,
ou se espera inquieta que a libertem num dia qualquer.
Diz-me!


Fernando Barnabé

sábado, 21 de novembro de 2009

Fica até amanhecermos


Fica até amanhecermos,
Deixa-me partilhar contigo o cheiro a maresia,
Eu sei que o sentirás como se amanhã não nascesse p'ra ti um novo dia.

Verás o Sol da minha terra aquecer-te a alma com brandura,
E sei que dele te lembrarás se acaso conheceres a desventura.
Verás as marcas dos nossos passos afundarem-se de mansinho na espuma das águas e ouvirás os silvos das gaivotas madrugadoras e as vozes graves dos pescadores que vão p’ra faina.
Verás os seus barcos partir cheios de esperança…

Já vejo um sorriso assomar aos teus lábios de romã,
Sei que vais ficar…
Tu que és o amanhã…O meu mar, o meu sol, o meu sal, a vida inteira!

Fernando Barnabé